segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

RICARDO BATALHA, O maior jornalista do Metal Brasileiro.

Quando falamos de Heavy Metal no Brasil, Ricardo Batalha é o sinônimo em pessoa desse estilo que possui tantos fãs não só pelo Brasil, mas pelo mundo. 
Bati um papo com essa figura lendária do Metal Brasileiro pra falar um pouco de sua trajetória de vida, dessa pessoa tão atuante em nossa cena.
Vamos ao papo !

Entrevista por Luis Carlos
Fotos: Arquivo pessoal.




1 – Quando é que começou esse amor pelo Rock and Roll?

Ricardo Batalha: Posso dizer que não passei pelo rock'n'roll, porque fui direto ao heavy metal em 1979, quando ouvi pela primeira vez o álbum Vol. 4, do Black Sabbath. O que eu sabia sobre o rock'n'roll me fora passado por minha mãe, que gostava de Elvis Presley, Billy Halley, Little Richards, The Platters, Paul Anka, Neil Sedaka e alguns outros astros dos anos 1950. Meu falecido pai foi advogado de uma gravadora e sempre levava para casa caixas de LPs, especialmente na época do Natal. Em uma delas estava o Vol. 4, que ficou jogado na estante em meio a outros de disco music, coletâneas, MPB, mas eu nunca tinha escutado. Não tinha consciência, naquela época, que o estilo daquela música era chamado de heavy metal, mas sabia que aquilo era o que queria ouvir pelo resto da vida. Ainda lembro a sensação, o exato momento. O que estava rodando na agulha do toca-discos e saindo das caixas de som por meio do potente receiver da marca Kenwood, modelo KR-4200. Passei a escutá-lo todos os dias e hoje estou aqui (risos).

2 – Você, que também é de uma época em que íamos para as lojas de discos para adquirir as novidades e comprar vinis de artistas que tínhamos ouvido em alguma rádio, qual sua opinião a respeito de um público que hoje parece pouco ou não consumir um CD?

Ricardo Batalha: Sou dessa época e ainda frequento lojas de disco e feiras de vinil (risos). O público consome, mas a oferta é cem mil vezes maior que no passado. Recebo, em média, dez lançamentos por dia. Você acha que dá para digerir tudo isso como fazíamos antes? É impossível. Além disso, acabou aquela magia porque tudo hoje é na base do imediatismo, da correria, das facilidades que a tecnologia nos apresenta. Não sou contra nada, muito pelo contrário, mas a forma como se consome música não é mais como antes.

Além de um grande Jornalista, um bom baterista.
 3 – A respeito disso, a internet ajudou ou deixou os fãs mais preguiçosos?

Batalha: Muito, mas muito preguiçosos. Tem gente com preguiça até de clicar num link (risos). Ah, se soubessem como era antes, quando a gente até viajava para outra cidade só porque um amigo tinha comprado discos importados e queríamos ouvir e gravar em fita (risos). Porém, o pior não é ser preguiçoso, é perder o interesse em conhecer coisas novas e antigas.

4 – Além da música, tinha o Direito como uma futura profissão e o esporte (basquete) como paixão, inclusive, seu irmão Frederico trabalha na área. Como e quando a música “falou” mais forte na sua vida?

Batalha: A música sempre falou mais alto. Minha mãe sempre diz que desde pequeno eu ficava dividido entre os estudos, os esportes e a minha sagrada vitrola portátil da Philips (risos). Falava que meus olhos sempre brilhavam quando começava a tocar alguma música. Ela costuma contar que eu sabia manusear discos corretamente na minha vitrolinha Philips modelo 133 e escolhia as faixas que queria colocar no espaço certinho no sulco do vinil sem ainda sequer ser alfabetizado. Quando me lembro de alguma situação ou de um local, facilmente relaciono a uma música. Tenho aquele cheiro característico do disco de vinil incrustado em mim desde criança.

5- Falando nisso, você teve um fanzine chamado “Deathcore”. Conte-nos sobre essa época.

Batalha: No final dos anos 1980, como não consegui espaço para trabalhar na Rock Brigade ou na mídia do rock que havia até então, comecei a editar o DeathCore ao lado dos irmãos Caio e Conrado Tabuso, dois amigos do basquetebol da época do Clube Paineiras do Morumby. Conrado era um dos cestinhas da equipe do meu irmão Frederico, na qual o armador era Marco Bianchi, humorista que começou no grupo de comédia Os Sobrinhos do Ataíde e depois apresentou o Rock & Gol e o Rockgol de Domingo, na MTV. Já Caio atuava em uma categoria inferior. Para montar o DeathCore Zine, nome que criamos pelos nossos gostos musicais e por representar o que havia de mais extremo até então, saímos em busca das novidades e fazíamos de tudo para deixar o fanzine atrativo. Caio é um desenhista de mão cheia, Conrado fazia os contatos e eu cuidava da criação e da produção. A redação cabia a todos. As vendas do fanzine nas lojas de discos eram significativas. Walcir Chalas, da Woodstock Discos, nos ajudava cedendo alguns lançamentos. Ele também vendia o DeathCore Zine, que se esgotava rapidamente por lá. Nunca vou me esquecer quando Walcir nos entregou "Into The Pandemonium" (1987), do Celtic Frost, em advanced-tape.

Batalha com os mestres do Black Sabbath.
6 – Como e quando você entrou na Roadie Crew?

Batalha: Com o distanciamento entre os outros editores do fanzine DeathCore, me uni a meu irmão, Frederico, e criamos o fanzine Silent Rage, que abordava somente o trabalho de bandas brasileiras. Ele estava cursando a faculdade de Jornalismo em Mogi das Cruzes e eu seguia no Direito, além de tocar bateria na banda Swingfire e continuar fazendo filmagens de shows. Nossa intenção era ajudar e fazer alguma coisa em favor do nosso underground. A primeira edição trouxe Viper, Firebox, Abhorrent (DF), Dorsal Atlântica, entre outras novatas. Uma delas era o Cicatrix, que tinha Claudio Vicentin na bateria e Rodney "Camarão" Christófaro no baixo. Eles editavam um fanzine chamado Roadie Crew. Nossos caminhos se cruzaram por acaso. Eu tinha ido ao Black Jack Bar ver um show de uma banda-cover do Black Sabbath, que não era o Electric Funeral de Vitão Bonesso. Como sempre fui fã incondicional do Sabbath, claro que queria ver se aquela era tão boa quanto à de Bonesso. Chegando lá, fiquei sabendo que haveria a abertura a cargo de um grupo autoral chamado Cicatrix. Era assim mesmo: você descobria o que ia tocar indo lá e olhando o cartaz na entrada. Não tinha evento no Facebook, nem sites que divulgam eventos, como ocorre atualmente. Assisti aos dois shows e, embora não tenha curtido aquele cover do Sabbath, gostei bastante do som do Cicatrix. Fui falar com os músicos na intenção de pedir o material da banda para divulgar no fanzine Silent Rage. No final, acabei descobrindo o fanzine Roadie Crew.. Curiosamente, naquela primeira edição do Silent Rage saíram tanto o Cicatrix quanto o Swingfire. A coincidência foi tanta que até mesmo na seção de resenhas de Demo-Tapes da revista Rock Brigade as duas bandas saíram na mesma edição! Tempos depois, como meu irmão havia se mudado para Mogi das Cruzes, onde cursava Jornalismo na Universidade Braz Cubas, resolvemos encerrar as atividades do Silent Rage. No entanto, aquela vontade de escrever e continuar fazendo parte da cena era maior que qualquer coisa. Sendo assim, como havia formado uma amizade com os músicos do Cicatrix, posteriormente passei a ser um dos colaboradores do fanzine Roadie Crew, que surgiu oficialmente em julho de 1994.

7 – Em tempos onde a mídia impressa vem sendo reduzida e ocupada pelas redes sociais, a Roadie Crew continua sendo uma revista. Lembrando ainda que muitas revistas acabaram. O que a Roadie Crew possui como diferencial para ainda se manter no mercado?

Batalha: Nunca foi fácil trabalhar com heavy metal no Brasil. Dentro do atual cenário, acredito que continuar existindo, lançando-a mensalmente nas bancas, já é o diferencial. A luta continua, diariamente.

8 – Voltando as suas raízes, já que o Vol.4 do Sabbath foi seu primeiro disco, vai uma “pegadinha” agora (risos). Black Sabbath ou Ratt?

Batalha: Black Sabbath. Sempre. Primeiro o heavy metal, depois o resto. Agora, se você me falar a que eu mais curto de hard rock, a resposta será Ratt. Sou o motorista da Kombi do Ratt, meu amigo (risos).

Com Stephen Pearcy do Ratt, banda do qual é muito fã.
9 – Parece que você também foi músico e/ou roadie, se não me falha a memória, baterista como eu. Conte-nos um pouco sobre isso.

Batalha: Sabia tocar um pouco de bateria, músico é outra categoria (risos). Ainda assim, fiz parte das bandas Cizânia, Swingfire, Midnight e Sunseth Midnight. A primeira música que consegui tocar inteira na bateria foi "Paranoid", do Black Sabbath, com o Cizânia. Não foi coincidência do destino, toquei porque era mais a fácil mesmo (risos). Embora o Cizânia tocasse composições próprias fincadas no heavy metal tradicional, certa vez nos apresentamos no encerramento do festival de música da escola estadual Professor Alberto Levy, localizado na avenida Indianópolis, local onde vota o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O festival era um ponto de encontro de amigos, onde se juntavam as turmas que andavam com as bandas Centúrias, Vírus e Cérbero. Pois bem, aquela foi a única vez que toquei Ratt na vida, pois nosso set list contava com "What You Give Is What You Get", faixa de "Invasion Of Your Privacy". Então, isso leva à pergunta anterior. Essas bandas fazem parte da minha vida de várias formas. Sobre ter trabalhado como roadie, o Claudio Vicentin era roadie de bateria de Ricardo Confessori, que estava no Angra e havia integrado as bandas Korzus, Garcia & Garcia e Witchcraft. Eu havia estudado na Unidade Luis Góes do Colégio Objetivo na mesma classe de Confessori durante o colegial e depois fui substituto do próprio Claudio no cargo de roadie do Angra, trabalhando em 1996 e 97 com eles.

"Nunca foi fácil trabalhar com Heavy Metal no Brasil. Dentro do atual cenário, acredito que continuar existindo, lançando-a mensalmente nas bancas, já é o diferencial. A luta continua, diariamente."


10 – Você é uma pessoa que possui uma história muito longa na cena Brasileira, então, quando é que teremos uma biografia do Ricardo batalha?

Batalha: Até daria mesmo para lançar uma. São muitas histórias interessantes e curiosas. Quem sabe um dia. Não descarto a possibilidade.

Com Max Cavalera (Soulfly e Cavalera Conspiracy)
 11 – Deixe suas considerações finais para os leitores do Arte Condenada.

Batalha: Quando era adolescente, costumava acompanhar meu pai em visitas aos seus clientes. Então, uma das vezes fui a uma reunião em uma gráfica localizada perto do Corinthians, na Zona Leste de São Paulo. A empresa passava por dificuldades e estudava a possibilidade de entrar com pedido de Concordata Preventiva, que hoje é o conhecido instituto da recuperação judicial, pela Lei de Falências. Naquela reunião, o então dono da gráfica me perguntou o que eu mais queria fazer na vida. Respondi que queria fazer uma revista de rock e ele me deu uma espécie de boneco e pediu que rabiscasse meu projeto. A capa da revista imaginária seria o Black Sabbath, claro. Rabisquei até um expediente imaginário, porque tinha costume de gravar os nomes dos autores de matérias e resenhas que mais tinha gostado. Como sempre gostei muito de escrever, especialmente sobre música, fazia críticas de discos em agendas ou nos cadernos escolares e passei a me ver trabalhando em uma revista, jornal, editora ou onde quer que fosse. Estudava outras coisas e tendia para o Direito, mas a música caminhava com uma intensidade maior em minha vida. Tudo que eu fazia tinha a ver com música e ela me acompanhava em quase todos os momentos. Não mudou nada e estou aqui até hoje. A dificuldade em se trabalhar com heavy metal no Brasil permanece em todas as áreas. Assim, ainda sigo tentando sobreviver profissionalmente através de uma de minhas grandes paixões: o heavy metal. Você pode tudo se tiver foco, interesse e vontade.




4 comentários:

  1. Grande guerreiro do metal nacional, sempre brigando pela cena. Parabéns pela matéria meu camarada.

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    1. Com certeza, além dele ser dono de uma simplicidade ímapr. Abração !

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  2. Excelente entrevista. Ricardo Batalha é uma lenda do Metal brasileiro, total respeito.

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    1. Com certeza, concordo contigo, e além disso, dono de uma personalidade boa e um caráter ilibado. Abração !!!

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